A cilada dos remédios para ansiedade

A cilada dos remédios para ansiedade | Amae Institute - Foto Stefano Pollio, Unsplash
Foto: Stefano Pollio, Unsplash

Os ansiolíticos são uma classe de medicamentos psiquiátricos conhecidos como benzodiazepínicos. Além de sua função ansiolítica também podem ser usados como anticonvulsivos, sedativos, relaxantes musculares, hipnóticos (para fazer dormir) e amnésicos. Esses psicofármacos estão entre os mais utilizados no mundo, mas escondem uma cilada: seu uso exclusivo para tratar de quadros psiquiátricos piora o sofrimento e causam dependência extrema a longo prazo.

 

A descoberta das benzodiazepinas aconteceu na década de 1950 e sua comercialização foi iniciada no ano de 1960, nos Estados Unidos. Estamos falando do clordiazepóxido vendido com o nome de
Librium
. Ele foi o segundo dos medicamentos psiquiátricos descobertos no mundo durante a corrida medicamentosa da metade do século XX, sucedendo somente o Miltown. Sua descoberta aconteceu durante a procura de substâncias que podiam funcionar como antibióticos.

Há uma história bastante interessante sobre o descobrimento das drogas psiquiátricas e ela diz muito sobre o modo como até hoje temos pensado o tratamento para o sofrimento psíquico com a medicação. Na corrida pela descoberta de novos antibióticos, um cientista da Grã-Bretanha, Frank Berger, passou a analisar um
desinfetante
de ambiente chamado Phenoxetol, ao introduzir um dos componentes desse desinfetante em ratos deparou-se com um potente relaxante muscular, mas o mais interessante nesse experimento foi que os ratos não davam sinal de estresse, nem mesmo em situações adversas, no entanto, a duração desse estado era de apenas alguns minutos. Continuando com suas pesquisas, Berger mudou-se para os Estados Unidos e sintetizou uma nova droga, chamada meprobamato que durava oito vezes mais que a droga inicial derivada do desinfetante. O resultado da nova droga nos animais de laboratório foi chamado de efeitos de “
domesticação
”, uma vez que se tornavam dóceis e fáceis de manejar. Esses foram os fatos históricos do primeiro medicamento psiquiátrico, o Miltown, que passou a ser distribuído em vários manicômios para “domesticar” os pacientes, mas também foi muito popular entre as pessoas comuns que se sentiam estressadas.

O primeiro benzodiazepínico seguiu os passos do Miltown, quando empresas farmacêuticas passaram a procurar por substâncias que deixassem os animais para teste de laboratório menos agressivos e insensíveis a dor. Foi Leo Sternbach que identificou o clordiazepóxido para efeito tranquilizador. O teste que trouxe o status de tranquilizante ao clordiazepóxido foi realizado em ratos que tinham o comportamento de luta instigado por choques em suas patas, ao administrar o benzodiazepínico os ratos passaram a se comportar de forma não combativa mesmo com o choque, eles agiam como se não ligassem para a dor causada pela corrente elétrica. O teste final foi feito com ratos de laboratório famintos treinados para apertar uma alavanca para obter comida e depois treinados para saber que se uma luz estivesse acesa na gaiola, receberiam um choque ao pressionar a alavanca. O fato da luz acender gerava muita tensão entre os ratos, inclusive com comportamentos de defecação, no entanto, quando o benzodiazepínico era administrado eles não se importavam com o choque e pressionavam a alavanca mesmo assim, todo o comportamento de estresse desaparecia. Anos mais tarde quando algumas críticas começaram a ser feitas aos benzodiazepínicos os resultados dos testes foram criticados da seguinte forma: o efeito do Librium significa que se você estiver na rua e um carro vier em sua direção, você não se importará e não correrá para preservar sua vida.

Um dado muito interessante daquela época é que esses primeiros medicamentos, descobertos por acaso, não tinham como base a detecção do sofrimento psíquico e uma busca intencional para curar as pessoas. Era sabido que os efeitos não provocavam a cura e portanto, eram substâncias que traziam um efeito temporário para auxiliar na terapêutica recomendada. No entanto, na década de 1970 um outro discurso começou a ser divulgado, enfatizado pela indústria farmacêutica a procura de efetivar um lugar primordial para os psicofármacos, a história divulgada sem qualquer comprovação era a de que esses medicamentos regulavam o metabolismo cerebral em desequilíbrio e essa é a história que nos contam até hoje.

A indústria farmacêutica redefiniu a denominação dos seus medicamentos para que parecessem mais com os “antibióticos”, ressaltando que até aquele momento essa classe de medicamentos eram as mais importantes da medicina, que salvavam muitas vidas. Dessa forma, os relaxantes musculares com poder de “domesticação” passaram a ser chamados de “normalizadores de humor”, os estimulantes receberam o nome de “antidepressivos” e os neurolépticos que deixavam os pacientes emocionalmente indiferentes foram batizados de “antipsicóticos”.

 

O efeito de dependência

Quando o Librium foi lançado em 1960 sua propaganda era baseada no fato de ser “inofensivo e seguro”, “um alívio puro para a ansiedade”, mas com o passar do tempo os relatos de pessoas com síndromes de abstinência ao tentar parar com a medicação começou a lotar as clínicas médicas e até mesmo a agência reguladora de medicamentos norte-americana. Os relatos incluíam
insônia, ansiedade mais intensa que antes do uso da medicação, tremores, dores de cabeça, sensação de enlouquecimento, convulsões, paranoia, desrealização, sensação de insetos rastejando na pele e sensação de morte
. Somente no ano de 1975 esses medicamentos passaram a ser controlados e vendidos com restrição por seus efeitos colaterais. A partir desse marco também foram muito divulgados pela mídia da época, sobretudo as revistas femininas, os terríveis efeitos dos benzodiazepínicos e a medicação caiu em desgraça nos Estados Unidos.

Em 1991 um estudo britânico mostrou que o efeito ansiolítico era efetivo apenas nas primeiras semanas e que posteriormente seu
uso comprometia o funcionamento psicomotor e cognitivo, afetava a memória, sendo a amnésia um efeito de todo benzodiazepínico
.

 

Mas o que acontece com o cérebro durante o uso dos ansiolíticos? Basicamente eles afetam um neurotransmissor chamado GABA responsável por inibir a atividade neuronal, ou seja, o neurônio que recebe o GABA reage em ritmo mais lento, em outras palavras o GABA é como um freio da atividade neuronal no cérebro. Quando os ansiolíticos são ingeridos eles intensificam a ação do GABA, deixando o ritmo cerebral em um estado de inibição. Como resposta o cérebro diminui a produção de GABA e tenta reestabelecer o ritmo normal, o que faz com que funcione de forma prejudicada.

Quando o ansiolítico é retirado o cérebro não consegue voltar a produção normal de GABA e, por consequência a dinâmica neuronal trabalha de forma disparada. Os sintomas da abstinência, então, seriam consequência da hiperatividade dos neurônios que trabalham sem um freio adequado.

Se a retirada dos ansiolíticos acontecer de forma planejada, após pouco tempo de uso e de forma gradativa, há chances do cérebro reestabelecer a produção de GABA, mas para usuários de longa data também há a hipótese de danos irreversíveis, o que explica pessoas que deixaram de usar os ansiolíticos há mais de um ano e ainda sentirem os efeitos da abstinência. Os ansiolíticos podem provocar danos cerebrais de retorno lento ou ainda, mudanças estruturais permanentes.

Portanto, se seu médico lhe receitou ansiolíticos converse com ele logo no início do tratamento sobre um plano de retirada e caso ele tenha lhe receitado sem previsão de desmame ou ainda dizendo que você deve tomar o medicamento pelo resto da vida, procure uma segunda opinião.

A prescrição medicamentosa psiquiátrica por si só não cura qualquer sofrimento, doença ou mal-estar, a medicação é um auxiliar no tratamento que envolve muito mais do que tomar remédios. Embora pareça que o sofrimento psíquico (ansiedade, depressão, alucinações, bipolaridade, entre outras nomenclaturas médicas) apareça do nada, ele está ligado à sua história de vida e aos marcos pelo qual cada um passou. Somente reestabelecendo essas conexões e falando sobre o sofrimento ele toma sentido e passa a ser banal.

 

Referência

Whitaker, R. Anatomia de uma epidemia. Rio de Janeiro: editora Fiocruz, 2017.

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