O uso de ansiolíticos entre brasileiros no Brasil e no Japão

O uso de ansiolíticos entre brasileiros no Brasil e no Japão | Amae Institute - Foto Lance Reis, Unsplash
Foto: Lance Reis, Unsplash

Na nossa última postagem de texto no blog falamos um pouco sobre os efeitos dos ansiolíticos quando usados como única estratégia e por tempo prolongado. Agora falaremos um pouco sobre como os brasileiros utilizam o medicamento a partir de nossa experiência clínica.

 

O sofrimento psíquico não está desvinculado da nossa história de vida, há muito que se avaliar quando apresentamos um sintoma psíquico e essa avaliação somente o sujeito que sofre pode fazer, orientado por um psicanalista ou outro profissional psi. No entanto, comumente nossa lógica segue a via médica e passamos a procurar a medicação milagrosa que retirará de nós toda a sensação de mal-estar sem que tenhamos que rememorar nossos traumas. Nessa busca muitas vezes chegamos a médicos que também pensam dessa forma, embora saibam que o remédio não curará, mas em sua limitação só consegue responder dessa forma.

Embora os psiquiatras, na maioria dos casos, saibam dos efeitos dos ansiolíticos e no início do tratamento já planejem a retirada (quando são comprometidos com seus pacientes), não é o que acontece com médicos de outras especialidades. No Brasil os médicos que mais prescrevem remédios psiquiátricos, além dos psiquiatras são cardiologistas e ginecologistas.

Mas os clínicos gerais nos postos de saúde também prescrevem bastante os ansiolíticos e muitas vezes iniciam essa prescrição copiando a receita do psiquiatra eternamente, às vezes sem saber das complicações que o remédio pode causar e outras tantas vezes orientados por um psiquiatra que lhes assegura que não haverá problemas.

No Brasil

O Brasil possuía um projeto de Saúde Mental exemplar até pouco tempo atrás, modificado a partir de 2019 pelo governo federal, com a proposta de capacitação permanente da Atenção Básica (Postos de Saúde) e discussões para que o sofrimento psíquico fosse acolhido e tratado com estratégias diversas, mas no resumo o que conseguimos fazer foi convencer o médico das Unidades Básicas de Saúde (UBS) que eles podiam receitar remédios psiquiátricos. Falhamos ao levar uma proposta complexa e necessária de cuidados em Saúde Mental para esses lugares de referência em saúde. O resultado disso foi a ampliação de pessoas viciadas em psicofármacos.

Os ansiolíticos estão entre as substâncias que mais podem causar dependência, mais que muitas drogas ilícitas. O uso de apenas 6 meses já pode desencadear dependência intensa para algumas pessoas. Os efeitos da abstinência são terríveis e em alguns casos de uso prolongado o dano cerebral é permanente. Mesmo sabendo disso desde a década de 1970, com vários estudos sobre os efeitos dos benzodiazepínicos, substâncias que compõem os ansiolíticos, o Brasil permaneceu em muitos lugares com a lógica da prescrição sem previsão de alta e ainda com a replicação de receitas sem consulta médica para avaliar o paciente.

Não é incomum que os municípios brasileiros tenham um lugar central de atendimento ambulatorial em Saúde Mental e que a conduta padrão seja retornar de 3 em 3 meses para pegar a receita na recepção, os pacientes não passam pelo médico.

Por outro lado, os médicos muitas vezes assumem que seu tratamento é baseado na pobreza da medicação e chegam a dizer que os pacientes precisarão tomar a medicação para o resto da vida, isso significa dizer que nunca mais melhorarão. Para os profissionais de saúde mais críticos que iniciam um trabalho nesses lugares, se deparam com um problema gigantesco que cresceu como uma bola de neve e atinge proporções que já não cabem nos ambulatórios de Saúde Mental. Para os pacientes que estão cronicamente dependentes dos benzodiazepínicos sabemos que enfrentam problemas iguais aos usuários de drogas, ou seja, não conseguem levar suas vidas sem a medicação, embora ela já não traga alívio para sua dor, ao mesmo tempo que passa a comprometer órgãos como rins, estômago, pâncreas e fígado, além daqueles que já não conseguem trabalhar por consequência da medicação e que, por isso, estão afastados recebendo subsídios do governo.

Nas periferias brasileiras esse cenário é a regra: a pobreza, a falta de esperança, a discriminação e falta de opção levam a uma dor da alma da qual se busca alívio na medicação – muitas pessoas o fazem com o álcool ou crack, a escolha se dá pelo acesso mais fácil. A medicação psiquiátrica é mais tomada por mulheres de meia idade, justamente aquelas que se preocupam mais com a saúde e vão ao médico com regularidade (irônico, não?) e são essas mulheres que mais compõem a grande massa de viciados em medicamentos ansiolíticos e antidepressivos, justamente as mulheres que sofrem com a falta de perspectiva nas periferias.

No entanto, o uso de medicação psiquiátrica para o sofrimento da vida é a via mais buscada no mundo todo, não é à toa que a indústria farmacêutica vê ano após ano suas vendas de psicofármacos aumentarem.

No Japão

Aqui no Japão o tratamento padrão do sofrimento psíquico também é a medicação. Os brasileiros chegam aqui já inseridos nessa lógica e quando passam por algum mal-estar é ao psiquiatra que recorrem. Mas podemos elencar algumas diferenças: no Brasil existem muitos psicólogos, psicanalistas e profissionais da saúde atentos à saúde mental que propõem outras estratégias de cuidado, não é o caso do Japão. Aqui existem poucos psicólogos e a prática clínica é bastante escassa; em segundo lugar, mesmo que no Brasil diante de um sofrimento procuremos um psiquiatra, vários desses profissionais estão dispostos a conversar e as consultas podem ser longas, dando espaço para que o paciente fale de seu sofrimento, já no Japão a barreira linguística exige que muitas vezes a pessoa vá ao médico acompanhada de um tradutor e se sinta constrangida para falar de seus problemas, além disso, a cultura médica aqui é de consultas muito breves com poucos diálogos. Outra diferença: no Brasil temos uma influência grande da Europa no meio médico psiquiátrico e pode ser que você tenha a sorte de conhecer um profissional que reconheça a importância de outras estratégias que não sejam baseadas somente na medicação, aqui no Japão a influência médica é bastante organicista ficando restrita ao remédio.

O cotidiano da grande parte dos brasileiros que moram no Japão é do trabalho nas fábricas, ambientes fechados que exigem o trabalho braçal e monótono por grandes períodos, lugares onde o sofrimento psíquico é intensificado. Além disso, também temos que levar em conta o período de luto ao deixar o país de origem e a saudade da família e amigos. Muitos brasileiros estão no Japão por falta de opção e não por vontade de morar aqui.

Quando o sofrimento psíquico entre brasileiros no Japão se agrava, nos deparamos com ausência de políticas de tratamento para estrangeiros, e o que acaba acontecendo é a pessoa retornar para o Brasil, onde terá familiares que podem oferecer cuidado e onde terá melhor acesso a profissionais de saúde.

Mas fique atento, o agravamento dos quadros de sofrimento psíquico pode acontecer pelo próprio tratamento medicamentoso, não por uma evolução natural do quadro. Se os cuidados psíquicos forem baseados em outras possibilidades que abarquem mais que as medicações, há muito mais chances do sofrimento diminuir e tornar-se um mal-estar banal.

Compartilhar:

Deixe seu comentário

Artigos relacionados

Remédios psiquiátricos no Japão

Muitas pessoas que estão no Brasil e planejam se mudar para o Japão, se perguntam como ficará seu tratamento psiquiátrico no novo país. Esse artigo

Como escolher um psicólogo no Japão

Existem diversos projetos de atendimento psicológico e psicólogos brasileiros no Japão, na hora de procurar por um é preciso alguns cuidados no país, pois não

Categorias

Receba conteúdos

Quando procurar um psicanalista? | Amae Institute - Foto: Tom Frances Palattao, Unsplash

Quando procurar um psicanalista?

Muitas pessoas ficam na dúvida de quando procurar um profissional da área Psi e qual seria o limite do suportável para buscar ajuda profissional. E

Remédios psiquiátricos no Japão | Amae Institute - Foto: Kobe Tang, Unsplash

Remédios psiquiátricos no Japão

Muitas pessoas que estão no Brasil e planejam se mudar para o Japão, se perguntam como ficará seu tratamento psiquiátrico no novo país. Esse artigo