Japão: altos índices de suicídio e estratégias ineficazes de cuidados em Saúde Mental

Japão: altos índices de suicídio e estratégias ineficazes de cuidados em Saúde Mental | Amae Institute - Foto Vlad D, Unsplash
Foto Vlad D, Unsplash

O Japão é um país conhecido pelas maiores taxas de suicídio no mundo, que se repetem ano após ano. Nos últimos 10 anos essa taxa vem recuando e durante a pandemia de Covid-19 por um breve momento essa diminuição foi mais significativa, no entanto, em outubro o país teve um grande aumento dos casos principalmente entre as mulheres (aumento de 83%). O tom alarmante dessa notícia vem acompanhado de outro dado: o número de suicídios somente no mês de outubro superou o número total de mortes pelo Covid-19 no ano de 2020.

A matéria divulgada no site da CNN Brasil (“Japão teve mais mortes por suicídio em outubro do que por Covid-19 em todo o ano”) alerta para o aumento de casos de suicídio no Japão, ressaltando a crescente taxa entre as mulheres e a relação com o desemprego ou corte de salários. O site de notícias aponta ainda para a crise econômica gerada pela pandemia de Covid-19.

Crise econômica e suicídio

Entre as famílias de nikkeys (japoneses fora do Japão) no Brasil há uma história que se repete: as indas e vindas entre os dois países diante dos altos e baixos da economia. Durante a década de 1980 e 1990 muitos brasileiros descendentes viajaram ao Japão para trabalhar em fábricas e juntar dinheiro para retornar ao Brasil, foram conhecidos como “dekasseguis”. Muitas pessoas hoje em dia falam dessas décadas como momentos muito propícios para guardar dinheiro com o trabalho no Japão, pois, os salários eram mais altos e não havia obrigatoriedade em pagar alguns impostos, como o seguro de saúde, por exemplo. Foram vários os brasileiros que puderam aproveitar a ocasião para fazer seu “pé de meia”, como falamos popularmente.

Mas também foi no final na década de 1990 que o Japão passou por uma grande crise econômica, o que fez disparar os casos de suicídios. Para compreender esse fenômeno precisamos de um pouco de História. O Japão não teve sua política constituída em torno do Welfare State como a Europa, quem ficava a cargo das políticas sociais eram as empresas privadas, neste contexto, os salários, seguros e aposentadorias eram benefícios administrados pelas empresas e para se conseguir uma projeção na carreira e acesso a esses benefícios, exigia-se fidelidade do empregado. Ainda hoje mudar de emprego com certa frequência é mal visto no Japão, herança desses tempos até a década de 1990.

De forma prática e resumida, uma pessoa (homem) que entrasse jovem numa empresa recebia determinado salário que aumentava junto dos cargos conquistados no decorrer de sua vida, o momento certo de receber os novos cargos coincidia com os marcos familiares como casamento, filhos, etc. Quanto mais tempo uma pessoa estivesse trabalhando em uma fábrica, mais cargos acumulava e melhor seria sua aposentadoria. Claro que isso tudo valia para a população japonesa, uma vez que estrangeiros, como no caso dos brasileiros, estavam no país apenas temporariamente (como se acreditava na época).

Caso uma pessoa trabalhasse por muitos anos em uma mesma empresa e mudasse de emprego, perderia todos os benefícios conquistados, começando do zero novamente. Isso fez com que a cultura ao redor das empresas exigisse fidelidade e “vistas grossas” para quem resolvia sair da empresa.

Mas a partir da década de 1990 fica evidente que a economia já não era a mesma e esse sistema mantido pelas empresas privadas começa a se desfazer, estamos vivendo nesse momento sob o neoliberalismo e embora esse “política social” não tenha sido bancado pelo Estado, também começa a ser desmontada.

É também na crise de 1990 que muitas pessoas perdem o emprego, justamente essas pessoas que acreditavam que as empresas eram “portos seguros”, que lhes garantiriam uma vida sem turbulências econômicas até a aposentadoria, isso tudo mesmo diante da fidelidade de décadas no mesmo emprego. Uma das consequências dessa crise foi o aumento do suicídio entre os japoneses, muitos deles pela vergonha de perder o emprego e não ver possibilidade de começar uma carreira do início em determinado momento da vida, já com uma família constituída, somando a isso o fato de que vários japoneses tinham apólices de seguro em caso de morte, podendo deixar as famílias em melhores condições financeiras com o recebimento dessas apólices.

A vergonha de procurar ajuda profissional

Na sociedade japonesa pedir ajuda em casos de sofrimento psíquico é visto como algo vergonhoso. Embora existam profissionais como psicólogos ou psicanalistas, esses em bem menor quantidade, não há a cultura de procurar por esses profissionais nas clínicas ou serviços de saúde mental como acontece no Brasil. Na verdade esses profissionais estão mais ligados aos hospitais ou são conselheiros educacionais em escolas. Além disso, o número de profissionais formados nessas áreas ainda é pequeno, e é comum que as pessoas não tenham referência de um desses profissionais ou não saibam a quem perguntar sobre indicações.

Quando a situação é insustentável, com o aparecimento de sintomas, as pessoas procuram pelos psiquiatras que oferecem apenas a medicação como forma de cuidado, sem qualquer outra estratégia.

Insuficiência nas estratégias de cuidado

E qual é o tratamento mais comum no mundo para os casos de sofrimento psíquico? Sim, as medicações psiquiátricas. Embora tenhamos acesso aos medicamentos psiquiátricos desde a década de 1950, cerca de 70 anos, os casos de depressão, ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia e todos os outros fenômenos nomeados pela psiquiatria não diminuíram e, até pelo contrário, cada vez mais ouvimos falar em “epidemias” de depressão e ansiedade e um grande aumento mundial no uso de psicofármacos.

Sam Lieblich, psiquiatra, psicanalista e pesquisador de neurociências na Universidade de Melbourne – Austrália, é categórico em dizer que a psiquiatria é uma pseudociência que se afirma através dos interesses capitalistas dos grandes laboratórios. Entre suas críticas estão: “a psiquiatria faz uma falsa equivalência entre o cérebro e a pessoa, a psiquiatria patologiza alguns dos problemas normais da vida humana, os psiquiatras impõem normas altamente restritas de pensamento e comportamento, e os psiquiatras não valorizam a autonomia dos pacientes” (https://overland.org.au/previous-issues/issue-239/feature-ignorance-is-bliss/).

A forma como relacionamos os medicamentos psiquiátricos como se fosse mais um entre os tantos medicamentos que conhecemos para tratar problemas orgânicos, não corresponde à realidade. Isso porque os psicotrópicos não funcionam no sentido da cura, como ocorre com uma medicação para a pneumonia, por exemplo. Quando essas substâncias foram descobertas sua propaganda era feita para alertar que seus efeitos abrandavam os sintomas, mas não curavam. Com o passar do tempo o marketing farmacêutico se empenhou em vender a ideia que esses medicamentos eram como “insulina para diabéticos” e precisavam ser tomados para toda a vida, garantindo uma fonte de lucro inesgotável.

No caso dos antidepressivos, Lieblich diz que nunca houve constatação de que tratavam dos sintomas apresentados pelas pessoas com indicação de uso e, além disso, seus efeitos colaterais podem ser piores que a própria queixa. Em outras palavras, se você faz uso de antidepressivo por alguns anos e percebeu uma piora depois de um bom tempo de uso do medicamento, provavelmente essa piora é um efeito do medicamento e não do seu quadro clínico inicial. É sobre isso que vários autores e associações vem nos alertando nos últimos anos, entre eles o jornalista Robert Whitaker e a associação Mad in America (https://www.madinamerica.com).

No início dos anos 2000 ficou comprovado que esses medicamentos provocam ideação suicida, de modo que a agência de regulação de medicamentos norte-americana exigiu um alerta nos rótulos de antidepressivos.

“Não está claro para nós exatamente por que os “antidepressivos” têm sido tão consistentemente associados a um aumento na tendência ao suicídio. Alguns propuseram que tem a ver com o efeito colateral comum de inquietação severa, também conhecida como ‘acatisia’, que – em combinação com o que quer que os tenha prescrito a droga em primeiro lugar – leva as pessoas a ficarem loucas a ponto de se matar. Acredito que isso seja influenciado pelo fato de que os pacientes vão a psiquiatras para que a singularidade de sua angústia seja ouvida, compreendida e ministrada, e o que eles obtêm, em vez disso, é uma mistura de vendas de produtos farmacêuticos, raciocínio médico padronizado sobre produtos químicos inexistentes desequilíbrios e uma receita de um produto químico inútil que os desmoraliza ainda mais” (Sam Lieblic, Ignorance is bliss?)

Não há consideração dos sujeitos, que procuram um médico para falar de suas angústias, como tal. Através da fala podemos ter a cura, mas isso é trabalhoso e não alimenta uma indústria gigante de medicamentos. Estamos às voltas com tanta tecnologia, procurando tanta inovação para curar a humanidade, mas descartamos logo de início o fato de que a fala (quem diria), que não precisa de nenhuma super tecnologia, pode reposicionar o sujeito diante de seu sintoma.

Conclusão

No mundo todo o aumento no uso de psicofármacos, entre eles antidepressivos e ansiolíticos, está em evidência. A psiquiatria hegemônica nos vende a ideia de que para qualquer sintoma de sofrimento psíquico é necessária uma medicação que por vezes é administrada por muitos anos. No entanto, a ideia de que os psicofármacos são como “insulina para diabéticos” e precisam ser tomadas por toda a vida é falsa. Nos casos leves e moderados tais medicações perdem seu efeito rapidamente e são altamente viciantes. É bastante comum na prática clínica atendermos pessoas que há mais de 10 anos tomam uma dessas medicações mesmo que elas não façam mais o efeito desejado, mas não conseguem deixar de tomá-las. Pior que isso, elas podem piorar o quadro inicial, inclusive com ideação suicida.

Já nos casos graves temos a experiência de mais de 30 anos do Open Dialogue, na Finlândia, nos mostrando com vários artigos e estudos como os casos de esquizofrenia tratados com antipsicóticos provocam a cronificação, enquanto os casos acompanhados sem ou com pouca medicação resultam na volta ao trabalho e nos afazeres cotidianos em 2 anos e cerca de 10 anos de estabilidade.

No Japão o fato de uma pessoa passar por qualquer tipo de sofrimento psíquico é motivo de vergonha, por este motivo temos uma resistência muito grande às psicoterapias ou a psicanálise e, justamente por isso, não encontramos tão facilmente profissionais que exerçam essa prática clínica. Diante do sofrimento insuportável a única alternativa é a medicamentosa, receitada por psiquiatras embasados em uma escola organicista.

Cada vez mais aumenta no mundo o uso de medicamentos psiquiátricos, cada vez mais aumentam os casos de depressão, ansiedade, bipolaridade, entre outros. Mesmo com o uso desses medicamentos não verificamos qualquer estabilidade nas estatísticas mundiais. Por outro ponto de vista, aumentam os lucros dos laboratórios farmacêuticos que com sua influência econômica aumentam as prescrições para cada vez mais diagnósticos, e cada vez mais precocemente.

No Japão, que não escapa a esta lógica global, os casos de suicídio aumentaram em outubro de 2020, superando somente neste mês o total de mortes por Covid-19. A falta de acesso a outras estratégias que não somente a medicamentosa, influenciada pela cultura da vergonha em precisar de ajuda, a orientação organicista dos médicos psiquiatras, a pandemia de corona vírus e questões econômicas são fatores considerados para pensar essa quadro.

Em um dos países com maior taxa de suicídios no mundo, fica claro que as estratégias de tratamento e acolhimento em Saúde Mental são pobres e se resumem à medicalização da vida, definindo “medicalização” como a prescrição somente do remédio para uma problema complexo, excesso de medicação e o uso que se faz dela quando se deposita todas as esperanças em uma substância que se apresenta falsamente como milagrosa.

Referências:

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/11/29/japao-teve-mais-mortes-por-suicidio-em-outubro-do-que-por-covid-19-em-todo-o-ano?fbclid=IwAR2bt8wTlPxXkxZMN2pwgQCKZaKkwatv7fzzdjCmaf3WC_x2eF-5Jd8T8Aohttps://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/11/29/japao-teve-mais-mortes-por-suicidio-em-outubro-do-que-por-covid-19-em-todo-o-ano?fbclid=IwAR2bt8wTlPxXkxZMN2pwgQCKZaKkwatv7fzzdjCmaf3WC_x2eF-5Jd8T8Ao

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