Recentemente, conversei com a CBN sobre o hikikomori no Japão (e no mundo), fenômeno de isolamento social extremo inicialmente identificado no Japão e que, nas últimas décadas, passou a ser observado também em outros países.
Uma das questões que procurei destacar na entrevista é que hikikomori não é simplesmente outro nome para depressão. Embora a depressão possa estar presente — assim como outros quadros de sofrimento psíquico —, ela não define necessariamente o fenômeno.
Uma pessoa em hikikomori pode permanecer meses ou anos praticamente sem sair de casa e, ainda assim, manter interesses, jogar videogame, assistir a animes, ler mangás, acompanhar conteúdos na internet e encontrar prazer nessas atividades.
Por isso, talvez seja necessário deslocar um pouco a pergunta. Em vez de nos perguntarmos apenas por que alguém não consegue sair do quarto, podemos perguntar: o que aconteceu com a relação dessa pessoa com o mundo que existe fora dele?
Como comentei na reportagem:
“Talvez seja mais uma questão de se recusar a viver num mundo que as pessoas compartilham, muito mais do que o estar no quarto porque não consegue se levantar da cama.”
Essa diferença é importante para compreendermos o hikikomori não apenas como um conjunto de comportamentos individuais, mas como um fenômeno que também nos diz algo sobre a sociedade na qual ele aparece.
Hikikomori no Japão: Saitō Tamaki e os anos 1990
O termo hikikomori (ひきこもり) tornou-se conhecido principalmente a partir do trabalho do psiquiatra japonês Saitō Tamaki, que chamou atenção para o aumento de jovens que abandonavam a escola, o trabalho e progressivamente os vínculos sociais, passando longos períodos reclusos em casa.
Saitō possui ainda uma trajetória intelectual particularmente interessante para nós: sua formação e sua produção mantêm um diálogo importante com a psicanálise e, especialmente, com a obra de Jacques Lacan, da qual se tornou um dos interlocutores no contexto japonês.
Ao observar o aumento desses casos durante os anos 1990, Saitō percebeu que havia ali um fenômeno que precisava ser pensado em sua especificidade.
O hikikomori caracteriza-se por uma retirada prolongada da participação social. Escola e trabalho são abandonados ou tornam-se impossíveis; amizades e outros vínculos presenciais diminuem drasticamente; em situações mais extremas, o contato com os próprios familiares também pode se tornar mínimo.
Entre os jovens, é comum que a família sustente materialmente essa retirada, garantindo moradia, alimentação e algum dinheiro. Em alguns casos, a comida chega a ser deixada diante da porta do quarto para que praticamente nenhum contato seja necessário.
Quando o fenômeno ocorre entre adultos, o isolamento pode assumir outras configurações. A pessoa pode permanecer dentro de casa por longos períodos, vivendo de recursos familiares, economias, benefícios ou outras formas de sustentação.
Enquanto isso, uma parte significativa da relação com o exterior pode passar a acontecer através das telas.
Uma vida que continua dentro do quarto
Essa é uma das características que tornam o hikikomori particularmente interessante.
Quando pensamos em alguém que não sai do quarto, facilmente imaginamos uma pessoa deitada, sem energia, sem desejos e sem interesse pelo que acontece ao redor. Essa imagem aproxima imediatamente o hikikomori da depressão.
Mas nem sempre é isso que encontramos.
A vida pode continuar bastante intensa dentro daquele espaço.
Videogames, mangás, animes, filmes, música, fóruns, redes sociais e comunidades on-line podem ocupar muitas horas do dia. A pessoa pode desenvolver conhecimentos bastante específicos, acompanhar outras pessoas pela internet e estabelecer formas de interação que prescindem quase completamente da presença física.
Há, portanto, uma diferença entre retirar-se da vida social convencional e deixar de investir no mundo.
E talvez seja justamente aí que o fenômeno comece a nos interrogar.
O isolamento tem uma história no Japão
Também é importante não retirar o hikikomori do contexto cultural em que ele inicialmente ganhou visibilidade.
O isolamento dentro do espaço doméstico não é uma experiência completamente estranha à história japonesa.
Durante determinado período da história da assistência psiquiátrica no país, existiram os chamados zashikirō (座敷牢), espaços de confinamento construídos dentro ou junto às residências. Pessoas com transtornos mentais ou comportamentos considerados difíceis de administrar podiam ser mantidas nesses cômodos pelas próprias famílias.
Havia nisso uma dimensão de contenção, mas também uma dimensão social.
Ter dentro da família alguém cujo comportamento escapasse radicalmente ao esperado poderia produzir vergonha e estigma. Manter essa pessoa afastada do olhar da comunidade era também uma maneira de preservar a família da exposição pública.
Naturalmente, não podemos simplesmente traçar uma linha direta entre os zashikirō e o hikikomori contemporâneo. São fenômenos históricos distintos.
Há, entretanto, uma diferença entre eles que merece atenção.
No primeiro caso, o isolamento era imposto. No hikikomori, é o próprio sujeito que se retira.
E essa inversão modifica completamente a pergunta.
Do que alguém se retira?
A sociedade japonesa é marcada por códigos sociais bastante definidos e por expectativas importantes em relação às trajetórias individuais.
Desde cedo, a criança entra em um percurso no qual escola, desempenho acadêmico, exames, universidade, trabalho e pertencimento aos grupos sociais possuem grande peso. A família participa intensamente dessa construção e pode depositar sobre os filhos expectativas muito precisas a respeito do futuro.
Há maneiras esperadas de estudar, trabalhar, relacionar-se e ocupar um lugar na sociedade.
Quando esse percurso funciona, ele pode oferecer pertencimento, reconhecimento e estabilidade.
Mas o que acontece quando alguém não consegue — ou não deseja — ocupar o lugar que lhe foi destinado?
Fracassar em uma prova, abandonar a universidade, não conseguir ingressar no mercado de trabalho ou não suportar determinados ambientes sociais pode adquirir uma dimensão que ultrapassa o acontecimento individual. Há também o sentimento de ter decepcionado a família, de não corresponder ao grupo e de não conseguir acompanhar aqueles que seguiram adiante.
É nesse ponto que o hikikomori pode ser pensado não somente como incapacidade de sair de casa, mas também como uma recusa da vida social nos moldes em que ela se apresenta ao sujeito.
Isso não significa romantizar essa retirada ou imaginá-la necessariamente como uma decisão consciente ou um ato de resistência política. O isolamento pode produzir enorme sofrimento, deterioração dos vínculos e situações muito difíceis para a pessoa e sua família.
Mas há uma diferença importante entre dizer que alguém simplesmente “não consegue viver” e perguntar que forma de vida se tornou impossível para aquela pessoa.
Talvez, então, a pergunta mais interessante diante de alguém em hikikomori não seja:
Por que ele não sai do quarto?
Mas:
O que há do lado de fora desse quarto ao qual ele não consegue — ou se recusa — a retornar?
Quando a internet muda o isolamento
Há ainda uma transformação histórica importante.
Quando Saitō Tamaki começou a estudar esses jovens, na década de 1990, o mundo digital era completamente diferente daquele em que vivemos hoje. Redes sociais, smartphones, streaming e as atuais comunidades on-line ainda não organizavam a vida cotidiana.
Hoje é possível permanecer fisicamente isolado e, ao mesmo tempo, acompanhar em tempo real aquilo que acontece no mundo.
É possível conversar, jogar com outras pessoas, participar de comunidades, consumir cultura, fazer compras, receber comida e estabelecer diferentes formas de vínculo sem praticamente sair de casa.
Isso torna a fronteira entre isolamento e participação social muito mais complexa.
A tecnologia pode funcionar como uma janela para o mundo, preservando vínculos que de outra maneira talvez desaparecessem. Mas também pode tornar possível permanecer indefinidamente dentro de um espaço extremamente restrito.
O quarto deixa de ser simplesmente um lugar de ausência do mundo.
O mundo inteiro pode entrar nele através de uma tela.
E, paradoxalmente, quanto mais o mundo pode ser acessado sem que seja necessário encontrá-lo presencialmente, menos necessário pode parecer atravessar a porta.
Não é apenas um fenômeno de jovens
Outra transformação importante ocorrida no Japão é o envelhecimento das pessoas em isolamento.
A imagem mais conhecida do hikikomori continua sendo a de um adolescente ou jovem adulto fechado no quarto, cercado por videogames e computadores. Entretanto, hoje sabemos que o fenômeno também atinge pessoas de meia-idade e idosos.
No Japão, tornou-se conhecida inclusive a expressão “problema 8050”: pais na faixa dos 80 anos que continuam sustentando filhos em torno dos 50 que permaneceram durante décadas afastados da vida social e do trabalho.
Essa questão também merece ser pensada quando olhamos para a comunidade brasileira no Japão.
Na entrevista à CBN, chamei atenção para um perfil que encontro com maior frequência entre brasileiros: pessoas que migraram ainda jovens, trabalharam durante muitos anos — frequentemente em fábricas — e que, ao envelhecer, podem experimentar uma redução importante de renda e de vínculos sociais.
A aposentadoria pode produzir uma ruptura adicional. O trabalho, mesmo quando duro e repetitivo, organizava horários, produzia encontros e garantia alguma inserção social. Quando ele desaparece, algumas pessoas passam a viver cada vez mais isoladas.
Isso não significa que todo isolamento na velhice deva ser chamado de hikikomori. Depressão, precariedade econômica, solidão, dificuldades linguísticas, afastamento da família e as próprias condições da experiência migratória precisam ser considerados.
Mas o fenômeno nos permite formular uma questão importante: o que sustenta os vínculos de uma pessoa quando desaparece aquilo que durante décadas organizou sua relação com a sociedade?
Tirar alguém do quarto não é suficiente
Se entendermos o isolamento apenas como um comportamento inadequado, a solução parece evidente: fazer a pessoa sair de casa.
Mas é justamente aí que precisamos ter cuidado.
Como destaquei na entrevista à CBN:
“Não se trata da gente pegar a pessoa à força e tirá-la do isolamento. Isso pode provocar uma situação muito pior.”
Se o quarto se tornou uma resposta possível a alguma coisa que, do lado de fora, se tornou insuportável, simplesmente eliminar essa resposta não resolve necessariamente aquilo que a produziu.
É preciso compreender cada caso.
O que aconteceu antes do isolamento? Quando começaram as primeiras recusas? Houve experiências de bullying, fracasso escolar, dificuldades no trabalho, conflitos familiares, ansiedade, depressão ou outras formas de sofrimento? Que relações ainda permanecem? Quem consegue se aproximar dessa pessoa? E de que maneira?
Antes de exigir que alguém retorne ao mundo, talvez seja necessário descobrir por quais pequenas frestas esse mundo ainda pode chegar até ela.
O ser humano é um ser de relações
O hikikomori nos coloca diante de um paradoxo contemporâneo.
Nunca tivemos tantos meios de permanecer conectados e, ao mesmo tempo, tornou-se possível organizar uma vida em que o encontro presencial com outras pessoas seja reduzido ao mínimo.
Por isso, talvez seja insuficiente perguntar somente o que há de errado com aquele que se isola.
O fenômeno também dirige uma pergunta à sociedade da qual essa pessoa se retirou.
Que formas de pertencimento oferecemos? Quanto espaço existe para trajetórias que escapam do percurso esperado? O que acontece com aqueles que não conseguem acompanhar as exigências de desempenho, produtividade e adaptação? E que possibilidades de retorno oferecemos quando alguém já se retirou?
Como disse ao final da conversa com a CBN:
“Se uma pessoa está isolada, não é porque está tudo bem, seja psiquicamente, seja das questões sociais, seja das questões familiares. Essa pessoa está dando a ver alguma coisa, porque o ser humano é um ser de relações.”
Talvez seja justamente por isso que o hikikomori não deva ser compreendido apenas como a história de alguém que decidiu fechar uma porta.
É também uma pergunta sobre o mundo que permaneceu do outro lado dela.
Hikikomori e Open Dialogue no Japão
Meu interesse pelo hikikomori também atravessa minha atuação no Japão. Atualmente, faço parte da Open Dialogue Network Japan (ODNJP), organização que tem entre seus co-representantes o psiquiatra Saitō Tamaki e na qual o hikikomori ocupa um lugar importante nas discussões sobre cuidado, diálogo e reconstrução dos laços sociais.
Essa aproximação também orienta a maneira como penso o fenômeno: diante de alguém que se retirou radicalmente da vida social, talvez a primeira questão não seja simplesmente como fazê-lo sair do quarto, mas como reconstruir possibilidades de relação com o mundo fora dele.
Carine Sayuri Goto
Psicanalista, mestre em psicologia, membro do Associação japonesa de psiquiatria transcultural e integrante da Open Dialogue Network Japan



