Desde a década de 1990 os brasileiros chegam ao Japão para desempenhar os mais variados trabalhos, mas principalmente o trabalho nas fábricas. No país onde há pouca mão-de-obra disponível os brasileiros se desdobram na linha de montagem, na execução de mais de um serviço ao mesmo tempo e na exigência de realização de horas extras, mas quando saber que o trabalho é excessivo?
Quando os brasileiros se decidem por deixar o Brasil para trabalhar no Japão, geralmente, estão dispostos a trabalhar por uma grande quantidade de horas diariamente. Estar preparado para trabalhar muito é o conselho mais dado seja por agências de trabalho, seja por pessoas que já estiveram ou estão trabalhando no Japão.
Comumente escutamos histórias de pessoas que estiveram no Japão antes das leis que limitam a hora extra no país, pessoas as quais consideravam aquela época como muito melhor, pois os salários também eram bem maiores. Algumas pessoas chegavam a dormir nas fábricas para não perder tempo com a locomoção até suas casas, ou ainda, apenas tiravam um pequeno cochilo e se mantinham trabalhando em períodos incríveis de mais de 24 horas.
Quando nos submetemos a esses regimes de trabalho, que para alguns pode parecer impossível, logo percebemos que de alguma forma o corpo suporta toda a carga de trabalho, e num primeiro momento podemos até nos sentir com bastante energia, pois o corpo entra em estado de tensão e vigilância típico das pessoas em situação de guerra. Além disso, também nos sentimos orgulhosos de termos enfrentado uma batalha (de trabalho) e ter dado conta. No entanto, podemos sentir as consequências desses períodos posteriormente e não fazer uma relação direta.
Quando o corpo dói após o trabalho a relação está estabelecida, para o esforço físico as dores musculares, dores nos pés, mãos e braços (a depender do trabalho), dores nas costas por má postura necessária para desenvolver o trabalho, dores nos joelhos por ficar muito tempo em pé são rapidamente relacionadas. Mais difícil é estabelecer o mal-estar psíquico que nos acomete após um determinado tempo no Japão.
O trabalho fabril está organizado para que qualquer pessoa possa desempenhá-lo, por isso, um trabalho mais complexo é fatiado em partes e cada pessoa executa uma fração do trabalho total, mesmo sem qualificação. O que no início pode parecer muito fácil, logo se mostra difícil, não necessariamente pelas habilidades cobradas, mas pelo tédio gerado e pela dor física. Trabalhos em linha de montagem, exigem agilidade e movimentos rápidos, na repetição de cada movimento a automatização do que se faz libera nosso pensamento que divaga para longe da fábrica.
O trabalho no Japão está organizado sob duas características fundamentais que interferem diretamente em nossa saúde psíquica: exigência de horas extras e flexibilidade do trabalhador, seja essa última característica na execução de mais de um trabalho ao mesmo tempo ou na possibilidade de mudança rápida de trabalho dentro do mesmo ambiente.
Somemos a isso a descartabilidade do trabalhador, que uma vez que executa trabalhos sem a necessidade de habilidades específicas, torna-se facilmente substituível, quase que sem valor.
Esse tipo de trabalho tem como produto para cada pessoa algumas consequências que podem não ser facilmente relacionadas. Entre elas podemos citar:
Conflitos entre os trabalhadores e falta de companheirismo no ambiente de trabalho
Adoecimento físico e descartabilidade do trabalhador quando adoece
Adoecimento psíquico como ansiedade, depressão, síndrome do pânico, bipolaridade, surtos psicóticos (assim nomeados pela psiquiatria), entre outros, a depender da história de vida e constituição psíquica
De forma clara, o trabalho em fábrica sempre produz mal-estar psíquico que pode se configurar como uma “crise existencial” e o fato da pessoa se perguntar o que está fazendo naquele trabalho, se não estaria melhor no Brasil, se questionar por que aguenta determinado tipo de desaforo, etc. Via de regra, a mudança de trabalho assusta muitas pessoas e não são raros aqueles que mesmo em um ambiente muito ruim preferem não encarar as mudanças encontrando as mais diversas justificativas.
No entanto, o trabalho pode ser o estopim para sintomas mais intensos de sofrimento psíquico, geralmente definido por fenômenos amplamente nomeados pela psiquiatria. Se uma pessoa desenvolverá um ou outro tipo de sintoma, isso será definido pela sua relação com os outros, sua história de vida desde a infância, sua necessidade de atender à demanda do outro, que pode estar expresso na dificuldade de dizer não (por exemplo, não conseguir recusar grandes quantidades de horas extras, mesmo diante do adoecimento), no quanto se sente responsável pelos outros, e tudo isso entrelaçado às questões concretas relacionados ao dinheiro e possibilidade de ter um trabalho em outro país.
Se o trabalho causa mal-estar psíquico e este mal-estar também tem relação com a história de vida de cada pessoa, revisitar essa história e entender porque agimos de determinada maneira, ou porque nos sentimos tão responsáveis em lidar com tantos problemas, ou ainda porque não conseguimos dizer que não faremos tantas horas extras é material a ser discutido e aprofundado nas sessões de psicanálise.
O drama particular do trabalho não está isolado no mundo, quem o vive tem uma vida familiar, tem relações sociais e econômicas e tudo isso entra nas sessões de análise, pois são os aspectos que formam cada sujeito. Dessa forma, para que seus sintomas que tanto incomodam e incapacitam possam ser coisas banais como outras da vida, é preciso descobrir sua origem e reconstruir uma história suportável.
Nesse sentido, sempre alertamos: quem recorre aos medicamentos psiquiátricos pode ter um alívio momentâneo, mas não encontrará a cura. As medicações psiquiátricas fazem bom efeito nos primeiros meses de uso, depois não são mais tão eficientes, obrigando o médico a alterar a quantidade prescrita ou a mudar a medicação, mesmo assim, o efeito do começo não é mais alcançado.
Existem dicas para que os sintomas psíquicos tenham algum alívio. Aqui, elencamos algumas dicas que podem te ajudar mais do que você imagina para lidar com o sofrimento:
Descanse: ter tempo para descansar e relaxar é fundamental para quem trabalha no Japão;
Recuse horas extras excessivas: sabemos que não fazer horas extras prejudica diretamente o valor do salário no fim do mês, no entanto, você não é obrigado a fazer quantidades absurdas de horas extras, não se sinta culpado por recusá-las;
Vá ao onsen: se você está no Japão e ainda não conheceu nenhum onsen (banho em águas termais), aproveite uma folga para relaxar em um, são os lugares para se relaxar por excelência, além de ajudar a aliviar dores musculares e articulares pela ação terapêutica das águas termais;
Se o trabalho está insuportável, arrisque-se a mudar de emprego: embora o trabalho na fábrica seja sempre repetitivo e exigente fisicamente, alguns lugares são mais opressivos que outros;
Faça parceria com seus colegas de trabalho: todos que trabalham com você são explorados da mesma forma e passam pelos mesmos problemas, não os enxergue como rivais, mas sim como companheiros;
Encontre amigos para desabafar sobre o trabalho e pensem juntos em alternativas;
Fique atento aos seus direitos trabalhistas e crie uma rede de apoio de amigos.
Essas são dicas básicas que podem te ajudar muito a lidar com a opressão sentida diariamente no trabalho e com o sofrimento desencadeado nesses ambientes, mais do que fazer caminhadas no fim da tarde ou meditação, embora isso também possa operar de forma positiva.



