Entre velas apagadas e yōkai: uma visita à exposição de Shigeru Mizuki em Yamagata

No último domingo, 12 de julho de 2026, visitei uma exposição dedicada a Shigeru Mizuki no Museu de Arte de Yamagata. Era um domingo nublado, típico do verão japonês. Apesar do tempo fechado, o museu estava completamente cheio.

Confesso que isso me chamou a atenção.

Vivemos em uma época marcada pela inteligência artificial, pelos algoritmos e pela promessa de que tudo pode ser explicado por dados. Ainda assim, centenas de pessoas aguardavam pacientemente para entrar em uma exposição sobre criaturas sobrenaturais que, durante séculos, habitaram o imaginário japonês.

E acho que essa cena diz mais sobre nós do que imaginamos.

A exposição, intitulada “Os Yōkai de Shigeru Mizuki – Hyakki Yagyō: Como nasceram as criaturas sobrenaturais”, não apresenta apenas os personagens mais conhecidos de sua obra. Ela acompanha seu processo criativo, seus cadernos de estudo, suas referências, suas ilustrações e a forma como construiu um dos maiores projetos de preservação do imaginário popular japonês.

Mas compreender Mizuki exige voltar um pouco no tempo.

O homem que devolveu vida aos yōkai

Shigeru Mizuki (1922–2015) foi um dos mais importantes mangakás do Japão.

Durante a Segunda Guerra Mundial foi enviado para a Nova Guiné, onde perdeu o braço esquerdo em combate. Muitos de seus companheiros morreram. Ele próprio quase morreu diversas vezes e chegou a afirmar que como único sobrevivente de um ataque ao seu grupo, foi condenado a morte.

Depois da guerra, retornou ao Japão profundamente marcado por essa experiência.

Foi então que começou a desenhar.

Em vez de voltar seus olhos apenas para a reconstrução do país, Mizuki voltou-se para algo que parecia igualmente ameaçado de desaparecer: as antigas histórias de fantasmas, espíritos e criaturas sobrenaturais transmitidas durante gerações.

Essas narrativas existiam havia séculos, mas muitas permaneciam restritas às tradições locais.

Mizuki percorreu o Japão pesquisando essas histórias, consultando livros antigos, ouvindo narrativas populares e transformando esse enorme patrimônio cultural em mangás acessíveis ao grande público.

Foi assim que personagens como Kitarō, Medama Oyaji e inúmeros outros yōkai passaram a fazer parte da cultura japonesa contemporânea.

Mais do que criar monstros, Mizuki ajudou um país inteiro a reencontrar sua própria imaginação.

Afinal, o que são os yōkai?

Responder a essa pergunta é surpreendentemente difícil.

A palavra yōkai (妖怪) costuma ser traduzida como “monstro”, “fantasma”, “demônio” ou “criatura sobrenatural”. Nenhuma dessas traduções, porém, é suficiente.

Os yōkai podem assumir formas humanas, animais, vegetais, objetos ou fenômenos da natureza. Alguns são assustadores. Outros são engraçados. Alguns protegem; outros enganam; muitos simplesmente existem.

Eles habitam uma região de fronteira entre o cotidiano e o extraordinário.

Durante séculos serviram para explicar acontecimentos inesperados, organizar medos coletivos, transmitir valores culturais e dar forma ao desconhecido.

Mas seria um erro pensar que pertencem apenas ao passado.

Por que os yōkai continuam existindo?

Uma das ideias mais interessantes presentes na exposição é que os yōkai nunca permaneceram exatamente os mesmos.

Cada época cria seus próprios yōkai.

No período Edo surgiram criaturas ligadas às estradas, às montanhas e aos rios.

Com a urbanização apareceram novas figuras associadas às cidades.

Hoje existem até yōkai relacionados à tecnologia, à internet e aos aparelhos eletrônicos.

Isso revela algo importante.

Os yōkai não sobrevivem porque as pessoas acreditam literalmente neles.

Eles sobrevivem porque continuam oferecendo uma linguagem para aquilo que escapa às explicações mais simples.

Provável que por isso uma exposição como essa continue atraindo milhares de visitantes em pleno século XXI.

O que isso tem a ver conosco?

Como psicanalista, naturalmente me interesso por aquilo que essas histórias despertam.

Mas talvez seja mais interessante perguntar:

O que acontece quando uma cultura cria uma figura capaz de dar forma ao indizível?

Nem toda experiência humana pode ser traduzida diretamente em conceitos.

Há perdas, angústias, estranhamentos e encontros que primeiro aparecem sob a forma de histórias.

Os yōkai ocupam justamente esse lugar.

Não porque representem simplesmente conteúdos inconscientes, mas porque permitem que certas experiências encontrem uma forma de ser narradas.

É nesse ponto que cultura japonesa e psicanálise começam a conversar.

Não para que uma explique a outra.

Mas para que ambas ampliem as perguntas que podemos fazer.

Um projeto que começa com uma história

Saí do museu levando comigo dois livros de Shigeru Mizuki.

Provavelmente voltarei muitas vezes a eles.

Não apenas para conhecer melhor o folclore japonês, mas porque sinto que essas histórias ainda têm muito a nos ensinar sobre a maneira como os seres humanos dão sentido ao mundo.

Foi justamente dessa inquietação que nasceu um projeto que venho desenvolvendo há algum tempo.

Seu nome é Hyaku Monogatari.

Na antiga tradição japonesa, cem pessoas reuniam-se à noite para contar cem histórias sobrenaturais. A cada história, uma vela era apagada. Quando a última chama desaparecia, dizia-se que algo desconhecido poderia atravessar a escuridão.

Não pretendo convocar fantasmas.

Mas gostaria de recuperar o espírito dessa tradição: reunir pessoas dispostas a escutar uma boa história e, a partir dela, pensar sobre aquilo que nos constitui.

Todos os meses partiremos de um elemento da cultura japonesa — um yōkai, um mangá, um anime, uma lenda, uma canção, um ritual — para abrir uma conversa com a psicanálise.

Porque, às vezes, compreender o humano começa justamente quando aceitamos caminhar por aquilo que ainda não sabemos explicar.

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