Como funciona a psicanálise?

Somos mais determinados pelo inconsciente que pelo consciente, ou seja, nossas ações e escolhas não são feitas com base no pensamento racional
Como funciona a psicanálise? | Amae Institute - Foto: Surface, Unsplash
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Muitas pessoas têm dúvidas sobre o que é a psicanálise, pra que ela serve e como é na prática uma sessão. No Japão, diferentemente do Brasil, são poucos os profissionais que atuam na área e a clínica psicanalítica é escassa, no entanto, a permanência de estrangeiros no país têm aproximado das pessoas essa possibilidade de tratamento que pretende muito mais do que o alívio dos sintomas.

Quando não estamos nos sentindo bem fisicamente o primeiro profissional que pensamos em procurar é um médico, pois é ele que supostamente detém o saber sobre as doenças e sobre o nosso corpo. Assim, quando temos uma dor de garganta por exemplo, é o médico que avaliará qual o melhor remédio para nos curar. Essa é a lógica que seguimos quando não estamos bem psiquicamente, identificando no corpo nosso mal estar e, muitas vezes, é ao médico que endereçamos os sintomas psíquicos que a partir da lógica médica também nos trata unicamente com remédios.

Mas para o mal estar psíquico o remédio é ineficiente. Essa última frase pode te deixar surpreso, mas se você já fez algum tipo de tratamento psiquiátrico contínuo baseado apenas na medicação, provavelmente percebeu esse fato.

Embora esteja dado socialmente que para os sofrimentos psíquicos há um correspondente químico cerebral desequilibrado, muitas pesquisas colocam essa afirmação em xeque e a clínica psicanalítica é um dos campos mais críticos sobre isso. Para a psicanálise há algo que a ciência médica exclui: o inconsciente.

Somos mais determinados pelo inconsciente que pelo consciente, ou seja, nossas ações e escolhas não são feitas com base no pensamento racional, mas somos levados a agir pelo inconsciente, que nos leva a caminhos pré-determinados pela nossa história de vida. Por exemplo, quando repetimos a escolha dos parceiros amorosos, mesmo tentando escolher pessoas diferentes, ou ainda, quando fracassamos insistentemente em algo, mesmo sendo capazes de ter sucesso, ou de forma mais banal, quando falamos algo que não queríamos dizer, mas não pudemos controlar a própria fala. Tudo isso são exemplos de como o inconsciente se manifesta.

Esses últimos exemplos fazem parte da nossa vida cotidiana, no entanto, podemos falar de questões patológicas da nossa psiquê, nesse sentido podemos abordar as diversas patologias mais conhecidas pela nomenclatura psiquiátrica como ansiedade, depressão, bipolaridade, esquizofrenia, entre outros. Para a psicanálise essas psicopatologias podem ser nomeadas de outras formas e não são entendidas como um desequilíbrio orgânico, mas sintomas da manifestação do inconsciente.

Vamos voltar aos exemplos para ilustrar a psicanálise: uma pessoa pode chegar na clínica se queixando de depressão, ou seja, desânimo, falta de vontade de realizar ações do dia-a-dia, vontade de ficar deitada, peso no corpo para se levantar até mesmo para ações de necessidade fisiológica, falta ou excesso de apetite, sonolência exacerbada, dores no corpo, ausência de sentido na vida, etc. Enquanto esses fenômenos, acrescido da duração, seriam necessários para o diagnóstico psiquiátrico, na psicanálise a questão é mais complexa e está ligada a história de cada sujeito. Uma pessoa pode começar a sentir todos esses sintomas a partir de determinada idade, desencadeados por uma história que lhe foi marcante, mas que esteve “escondida” em seu inconsciente. Em outras palavras, todo esse mal estar parece surgir do nada, mas na verdade tem conexões que são desconhecidas do sujeito, embora se trate de sua própria história. Somente através da fala essas conexões podem ser refeitas e os sintomas podem tomar novos sentidos, deixando se ser sintomas patológicos.

A psicanálise nada mais é que a cura pela fala, isso parece banal, mas trata-se de algo muito complexo, inclusive mais complexo que toda a nossa tentativa de lidar com o sofrimento através da ciência dos fármacos.

Exemplo clínico para entender a psicanálise

Trago aqui um exemplo clínico relatado em um artigo científico, para deixar mais claro o que a psicanálise pode fazer pelos sujeitos: trata-se de Maria[1] (nome fictício) levada ao hospital pelo marido que relata que há 4 dias não se alimenta, não urina ou evacua, nem se alimenta ou se higieniza, ficando apenas em sua cama. Dá entrada na internação sem nada dizer. Desde o primeiro episódio de seu quadro clínico, há cerca de 20 anos, passou 20 internações psiquiátricas com duração de 30 a 40 dias, sempre com os mesmos sintomas. O tratamento psiquiátrico recomendado restringia-se a medicação com benzodiazepínicos e eletrochoque (ECT), fora essa conduta não lhe foram oferecidas outras possibilidades até aquele momento, quando a equipe do hospital vinculada a um programa de psicanálise junto a uma universidade do Rio de Janeiro lhe propõe a cura pela fala, e justamente, Maria define sua doença como “não falar”. Quando questionada pelo analista sobre sua doença diz:

 “Há 18 anos que eu venho assim doente, né? Não como, não bebo, não tomo banho, só fico em cima da cama, não falo com ninguém”. O analista pede que explique melhor e ela diz: “Há 18 anos que eu venho doente, não como, não bebo, não tomo banho, não falo com ninguém, só em cima da cama”. Ele insiste, ela responde: “A doença vem de repente”. Ele pede um exemplo: “Ah, ela vem eu começo a ficar deitada, né? Começo ficar deitada, aí… aí eu fico… sem comer, sem beber, já não falo mais com ninguém.”

No decorrer da sessão psicanalítica ela conta sobre sua família e que o irmão morreu da mesma doença, a doença de família que também o fez calado, doença como a dela. Também diz que desde criança vem nervosa porque assistia a doença desse irmão. Sua mãe por sua vez, tentava falar com o filho que não conseguia.

Diante desse quadro Maria, então, comete um ato falho que muda a compreensão da história para a psicanálise:

Finalmente: Maria comete um único lapso durante a apresentação. Um só, mas suficiente. No início da entrevista, dissera mais de uma vez que vem doente há 18 anos. Adiante, é perguntada sobre quando sua doença começou: “aos dezoito anos”. Dezoito anos? “É. Eu tava com 46 anos”

Aí a psicanálise aparece, quando um sujeito se engana pode não ser um mero engano, mas uma expressão do inconsciente. Nesse caso, Maria repetia que estava doente há dezoito anos, para em seguida cometer seu “engano” e diz que estava doente
aos dezoito anos. Há uma grande diferença de estar doente


dezoito anos ou
aos
dezoito anos.

Aos dezoito anos Maria se casou com um rapaz que seus pais não aprovavam, fugindo com ele para longe, por esse motivo sua mãe não queria perdoá-la, então seu pai ajoelhou aos pés da esposa e implorou o perdão da filha. A mãe de Maria a perdoou dizendo “tá vendo, ele gosta de você”. Precisamos dizer que a mãe de Maria era uma mulher tirânica e forte, que batia muito nos filhos e não demonstrava amor, a não ser diante do filho que emudeceu pela doença.

Concluindo: Aos dezoito anos tem origem sua doença, embora só tenha se desencadeado aos 46 anos, e essa origem está relacionada com a forma como se casou. Nas conexões possíveis pela psicanálise a paciente (analisanda) pode descobrir que se identificava ao irmão doente para ter o amor/desejo da mãe e que ao se casar o papel da mãe, como ser inipotente e tirânico, é assumido pelo marido. Quando Maria se recusa a comer, andar, se higienizar e realizar suas funções fisiológicas básicas, está recusando a tirania que esteve submetida a vida inteira em sua fantasia.

É a partir dessas conexões só possíveis na psicanálise que Maria pode sair do estado de “catatonia” sem utilizar medicamentos ou eletrochoque e realizar uma grande mudança em sua vida, na medida em que continuou sua análise.

Aqui escolhemos esse caso que pode ser considerado grave por envolver a internação e recusa do sujeito em realizar tarefas necessárias para a manutenção da vida, o que dava à psiquiatria a possibilidade de intervenções mais drásticas, mas nossa intenção é ilustrar o que pode a psicanálise e isso também ocorre em casos denominados como leve ou moderados, mas que em seu resumo sempre mostra os conflitos inconscientes dos sujeitos. A psicanálise é para todos.

[1]
Caso relatado no artigo “O diagnóstico em psiquiatria e psicanálise” de autoria de Ana Cristina Figueiredo e Fernando Tenório, na Revista Latinoamericana de psicopatologia fundamental, 2002.

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